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Entrevista - ED 85

Paisagista e Botânico, Ricardo Cardim é diretor da Cardim Arquitetura Paisagística

Paisagista e Botânico, Ricardo Cardim é diretor da Cardim Arquitetura Paisagística, escritório especializado em grandes projetos e com atuação nacional. Mestre em Botânica pela Universidade de São Paulo, recebeu em 2021 o Prêmio Muriqui Pessoa Física, uma das principais premiações ambientais do país, cedido pelo RBMA-UNESCO. Criou a “Floresta de Bolso”, técnica para a restauração de florestas nativas no meio urbano e rural. Recebeu em 2010 a Medalha Anchieta e Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, cedido pela Câmara Municipal de São Paulo. Foi também curador de exposições no Museu da Casa Brasileira (MCB) e Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (MuBE) em São Paulo, SP, e participa neste último como membro do Conselho de Meio Ambiente. Publicou em 2018 pela editora Olhares os livros “Remanescentes da Mata Atlântica: as grandes árvores da floresta original e seus vestígios”, finalista do Prêmio Jabuti na Categoria Ciências, em 2022 “Paisagismo Sustentável para o Brasil” e em 2024 a edição ampliada de “Remanescentes da Mata Atlântica”, livros estes que integram as bibliotecas de Harvard, MOMA e Stanford, EUA. Também atua como artista plástico, e em 2023 expôs tela a óleo na SP-Arte, e no mesmo ano recebeu o prêmio de melhor paisagismo na Casa Cor São Paulo. É membro da Comissão Municipal de Mudanças Climáticas de São Paulo, e em 2024 ministrou palestra sobre meio ambiente para o Conselho da Presidência do Brasil.

AA – Como é o dia a dia de Ricardo Cardim à frente do escritório Cardim Arquitetura Paisagística e a divisão de tarefas com a arquiteta e urbanista Alessandra Caiado Cardim?

   A Cardim Arquitetura Paisagística hoje é um dos maiores escritórios de paisagismo do país com mais de 40 arquitetos trabalhando, comandados por mim, Ricardo Cardim, botânico e Alessandra Cardim, arquiteta. Eu normalmente faço a parte de escolhas de espécies, composição e botânica, além da parte comercial de contato com os clientes. A Alessandra faz a coordenação de arquitetura e desenvolvimento de criação da parte arquitetônica junto com a escolha de materiais sustentáveis. E temos equipes com vários talentos diferentes, muito competentes, que nos auxiliam no dia a dia com a criação, desenvolvimento e compatibilização arquitetônica, pois lidamos com projetos muito grandes que exigem muita responsabilidade, atenção e detalhamento.   

AA – Você é um defensor do paisagismo com plantas nativas. Além do benefício da utilização de plantas originárias do Brasil, o que podemos ter a mais de ganho?

A questão das plantas nativas não é uma escolha ideológica, é uma escolha científica. A ciência já mostra a mais de duas décadas que usar espécies nativas é fundamental para o equilíbrio ecológico, para a restauração ecológica e a regeneração da paisagem nativa, evitando assim a extinção de espécies. Dessa forma, a Cardim Arquitetura Paisagística abraça a causa e vem trabalhando com muita dedicação nesse sentido de mudar o mercado que hoje no Brasil tem 90% das plantas de origem estrangeira no paisagismo, o que é um enorme absurdo considerando que este é o país com a maior quantidade de plantas nativas do mundo, além de abrigar a maior biodiversidade do planeta. Outra questão importante das plantas nativas é a questão cultural, se a gente tem as plantas nativas como símbolo de beleza, sofisticação, decoração e importância em diferentes níveis, o que acontece é que isso vai também salvar os remanescentes fora das cidades. Explico: Hoje o Brasil é um dos países mais urbanizados do mundo, em cada 10 brasileiros 9 vivem nas cidades e são as cidades que decidem sobre a preservação do que sobrou fora das cidades. Se nas cidades só têm plantas estrangeiras e não reconhecem sua flora nativa, ela tomará péssimas decisões sobre o futuro dos remanescentes nativos fora delas. Então o paisagismo é uma ferramenta fundamental com a finalidade de educar a população sobre a beleza e a importância das plantas nativas, para que ela queira preservar também o que sobrou fora das cidades.           

AA – Todos nós temos desejos, conhecemos dois seus, um é a implantação da graduação em Paisagismo no Brasil e o outro é a criação de um museu da Mata Atlântica. Qual a possibilidade desses projetos deixarem de ser um sonho e virarem realidade?

A graduação de paisagismo no Brasil, como uma graduação multidisciplinar, focada em sustentabilidade, respeito ecológico, com diferentes disciplinas é um anseio que ainda vejo distante, infelizmente. Não existe nenhuma política pública neste sentido. Sempre que tenho a oportunidade eu falo muito dessa necessidade, mas ainda é um sonho remoto. Um museu da Mata Atlântica também é uma luta a ser travada, difícil acreditar que o Brasil, o país com a maior biodiversidade do planeta, a natureza mais rica do mundo não possui um museu sério que possua uma coleção pública, que conte o que é essa biodiversidade nativa, como ela era no passado, como se transformou ao longo dos anos, o que ficou e quais são os caminhos para o futuro. Isso é fundamental, principalmente para as crianças. Então eu tenho plena convicção da importância de o país ter um museu da Mata Atlântica ou um museu da Biodiversidade Nativa.

AA – A diminuição de áreas verdes nas grandes cidades é uma das causas de eventos climáticos extremos. Como aliar o desenvolvimento urbano a uma arborização eficiente?

Evidências científicas hoje comprovam claramente a correlação entre a quantidade de verde presente nas cidades e os eventos climáticos extremos. O que acontece é que quanto mais impermeabilizada é uma cidade, mais ela acumula calor, eleva rapidamente a evaporação e a formação de tempestades extremas como vem ocorrendo em São Paulo a mais de 20 anos, fazendo com que a cidade perca a denominação de ‘cidade da garoa’ da época dos meus avós. Isso é muito grave, está inviabilizando a cidade, principalmente porque a fiação elétrica é aérea, as árvores não são cuidadas e caem em cima da fiação, danificando a eletricidade. Se não houver uma mudança radical nesse sentido, nos próximos anos a cidade estará fadada a ficar semanas sem eletricidade durante os verões. É totalmente possível conciliar as cidades já existentes com a arborização, basta reorganizar as vagas de veículos, implantando árvores junto a essas vagas. Ex: Você tem uma árvore de grande porte nativa com uma vaga de 7m, outra árvore de grande porte nativa e outra vaga de 7m e assim consecutivamente você cria túneis verdes na cidade inteira. É vontade política, é barato fazer, é fácil, mas nossos políticos ainda não entenderam a importância do meio ambiente urbano. Quando eles falam de meio ambiente só pensam em Amazônia, créditos de carbono, coisas distantes do cotidiano de 90% da população brasileira. 

AA – Você é o fundador do “Florestas de Bolso”, uma técnica mais natural de restauração ecológica da Mata Atlântica. Fale mais sobre esse projeto?

A “Floresta de Bolso” é um projeto que procura restaurar a vegetação original da cidade em meio a cidade, de forma que a gente tenha uma situação de educação ambiental muito eficiente. Então ela vem restaurar a Mata Atlântica em áreas públicas dentro da malha urbana consolidada, para que as crianças possam conviver com seus pássaros, suas plantas, suas frutas, seus cheiros, suas texturas e para que as pessoas tenham repouso, principalmente psicológico dentro da cidade. Os japoneses e a ciência já sabem da importância desse “banho de floresta” que deveria ser política pública. Infelizmente a cidade de São Paulo ainda não entendeu a Floresta de Bolso, não compreende, não concorda e aí continuamos com uma cidade árida, caótica, cheia de eventos climáticos extremos.

AA – Edifício Seed (que significa semente em inglês), na cidade de São Paulo, é o primeiro edifício do Brasil com fachadas de Floresta de Bolso de Mata Atlântica. O projeto conseguiu despertar o interesse das construtoras por esse tipo de construção sustentável?

O Edifício Seed, já com mais de 7 anos, foi o primeiro edifício a ter floresta na fachada. Vieram muitos outros depois, tanto da Cardim Arquitetura Paisagística como de outros escritórios, o que mostra que o mercado vem buscando mudar, principalmente o mercado de alto padrão e esse era o caminho que o poder público deveria seguir, incentivando as construtoras e incorporadoras a construir prédios verdes, com pele verde e com biodiversidade nativa. Isso deveria ser política pública, com incentivos fiscais, descontos no IPTU, mas são as empresas privadas que estão liderando essa ideia, com uma visão de vanguarda para as cidades verdes da terceira geração do século 21 .        

AA – Seus livros são fruto de décadas de pesquisas sobre a natureza brasileira e obtiveram grande sucesso. Remanescentes da Mata Atlântica de 2018 foi finalista do Prêmio Jabuti de 2019 e traz imagens da floresta original e de sua destruição. Nestes sete anos que se passaram, após o lançamento do livro, houve avanço ou retrocesso na preservação desse importante bioma?

Graças a Deus os dois livros que publiquei tiveram bastante repercussão com as pessoas, obtendo um excelente retorno, porque a ideia era justamente provocar uma discussão de um assunto tão importante e esquecido na sociedade brasileira. Tenho certeza que tenha ajudado, claro, como uma gotinha no oceano, para uma mudança de paradigma. Outro canal muito importante é o Instagram, as redes sociais, onde todos estão e eu tenho feito dessa ferramenta uma importante aliada na educação ambiental e tenho conseguido um bom retorno. Mas claro – Ricardo sozinho não vai fazer nada, precisamos do Ministério do Meio Ambiente, dos políticos, do setor privado, envolvidos realmente na valorização e restauração da maior biodiversidade do mundo, um grande ativo econômico nosso, mas que ainda não se deram conta.

AA – Outra faceta sua é a arte plástica, inclusive já participou de exposições. Explique sobre esse outro dom.

Desde criança que adoro desenhar, na escola os professores me tachavam de viver no mundo da lua porque eu ficava desenhando e no final isso se tornou uma ferramenta muito importante na minha vida, a despeito desse combate que sofri na escola quando criança. Hoje esse dom de desenhar que recebi ajuda muito no escritório, nos desenhos dos projetos de paisagismo, os plantios e há uns dois anos eu comecei a retomar isso de uma forma mais artística, com a pintura de quadros a óleo, inclusive expondo na SP Arte, além de outras exposições. Infelizmente devido às demandas do escritório e outras atividades, eu não tenho tempo para pintar como gostaria. Mas a ideia desse trabalho artístico é trazer a biodiversidade nativa pra arte, porque uma coisa que sou profundamente crítico é ver os artistas representando a flora brasileira sempre com plantas estrangeiras, sem fazer pesquisa, isso deseduca a população, já que a arte é uma ferramenta tão importante para a sensibilização, questionamentos e reflexões, então eu procuro pintar as nossas plantas brasileiras com critério científico, claro que relacionadas à arte, só preciso de mais tempo, quem sabe no futuro.       

AA – Por fim, qual o papel de cada indivíduo na luta ambiental e a importância da conscientização para a preservação do nosso verde?

Todos os brasileiros e pessoas que vivem nesse território chamado Brasil, têm uma enorme responsabilidade com essa terra. Nós estamos na província mais rica de natureza de todo o planeta, isso não é pouco, mas não é falado na TV, não é ensinado nas escolas, pelo menos não com a quantidade e qualidade que deveria ser, então as pessoas esquecem disso e acham que estamos em um lugar banal, mas não. É um lugar extraordinário e quando a gente toma consciência disso, também vem junto uma grande responsabilidade de como eu posso cuidar e melhorar todo esse presente herdado que é um grande patrimônio do planeta, não só nosso.  

Legendas:

Foto 01 (destaque) – Ricardo Cardim e Alessandra Caiado Cardim

Fotos 02 e 03 – Edificio Seed

Foto 04 – Remanescentes da Mata Atlantica. 2018. Obra finalista do Prêmio Jabuti 2019 na categoria Ciências

Foto 05- Farm flagship / São Paulo-SP. Arquitetura Marcelo Rosembaum

Foto 06 – Indústria em Sorocaba-SP

Foto 07 – Residência em Indaiatuba-SP. Projeto Jacobsen Arquitetura

Foto 08 – Margem do Rio Pinheiros. São Paulo-SP

Foto 09 – Ponte Bayer. Projeto de ilhas de paisagismo com Mata Atlântica em meio ao Rio Pinheiros em São Paulo. Arquitetura Loeb e Capote

Foto 10 – Parque Global (em andamento) em São Paulo-SP. O maior empreendimento imobiliário da América Latina. A Cardim Paisagismo é responsável pela arquitetura paisagística de todo o complexo. No residencial junto ao arquiteto Enzo Enea (Suíça). Arquitetura MCAA. Incorporadora Benx e Related. Prêmio Master Imobiliário

Foto 11 – Os parquinhos naturalizados são alternativas sustentáveis para que as crianças ditem suas brincadeiras

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